CADERNO DOIS
Diálogo artístico
Alemão fluente e sem legenda
Atenta a cada passo dos inúmeros bailarinos, a coreógrafa e professora Gabriele Generoso emendou semelhanças e diferenças entre a dança popular e a dança contemporânea, ao assistir, na última segunda, ao espetáculo “Juiz de Fora e a colonização alemã”, do Grupo de Danças Alemãs Schmetterling. A apresentação estava inserida no calendário da 8ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, que segue até o dia 15 de fevereiro com variadas manifestações das artes cênicas: comédias, dramas, musicais, danças e oficinas.
Gabriele, mestre na área pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), achou curioso o convite da Tribuna. Afinal, ela estava sendo chamada para tecer comentários sobre um trabalho que fez parte da sua adolescência. “Eu vivia no Bairro Borboleta, já que a minha madrinha morava por lá”, comenta, referido-se ao local da sede da Associação Cultural e Recreativa Brasil Alemanha, mantenedora do Schmetterling. Nessa época, a professora já era envolvida com a dança, mas não encontrava tempo - embora tivesse vontade - para participar do famoso grupo folclórico. “Sempre acompanhei a apresentação das minhas amigas na Deutschesfest, a festa alemã.” Aliás, na opinião da coreógrafa, ao sair do tumulto do bairro e conquistar o palco de um teatro, os integrantes se mostraram um pouco mais tensos, apesar de manterem a alegria e o diálogo com a plateia.
“Reaja!”
A interação, a propósito, foi comprovada pelas reações da artista plástica Gilka Lewer, 73 anos, que, a cada coreografia, aplaudia, elogiava os figurinos e procurava participar da cena. “Reaja!”, gritou para o dançarino que estava no chão durante a “Dança da conquista”, em que dois homens brigam por uma mulher. “Achei tudo leve e contagiante”, disparou Gilka ao final do espetáculo.
Para Gabriele, os movimentos funcionais, ou seja, as ações do dia-a-dia que viram dança para contar a história, são os responsáveis pela ligação construída com os espectadores. “Não há como alguém falar ‘não entendi’, coisa que, muitas vezes, acontece na dança contemporânea”, analisa. É verdade que as vertentes coreográficas atuais lançam mão dos gestos funcionais - e, às vezes, até exageram, “mostrando apenas o movimento em si”. A diferença, como diz a professora, é que a apresentação folclórica elabora uma verdadeira legenda para narrar e celebrar a trajetória de um povo.
Aí está outro ponto em comum entre as duas propostas. Se a dança cênica aborda a relação do homem com o mundo (dança moderna) e do homem com seu interior (dança contemporânea), a popular mistura tudo isso para relatar a vida. “Vejo-os fazendo isso de forma visceral, com muita paixão”, observa Gabriele, destacando as indumentárias e os elementos da dança primitiva, como a comemoração e o agradecimento.
Inverso
Por outro lado, segundo a coreógrafa, enquanto o folclore sai das ruas e procura os teatros para se manter vivo, as artes contemporâneas vasculham lugares inusitados ou públicos para respirar com mais facilidade e granjear novos adeptos. “Mesmo assim, a dança popular não busca, especificamente, a formação de público. Ela acontece de qualquer jeito.” Por isso, Gabriele prefere usar o termo dança popular, e não dança folclórica, já que não estamos falando de algo estanque. A representação, depois de mais de 150 anos, da vinda dos imigrantes alemães para Juiz de Fora e da sua participação na construção da cidade realmente comprova que o tempo não é capaz de paralisar uma comunidade que valoriza suas tradições.
Parabens a todos nós!
Um abraço.
Iverson